BrasilColunas

Escola pública e pandemia

Prof. Luciano Nascimento (Doutor em Literaturas)

O que é a escola pública? A pergunta pode parecer boba, mas é fundamental. Porque não é possível discutir com seriedade o que não se conhece senão superficialmente. A menos que o objetivo da discussão seja, por princípio, a busca pelo conhecimento de tal coisa. Não é isso que se tem visto em muitos textos de opinião relativos ao tema que circulam no país. Não raro esses textos se esforçam para alçar sobreposições de clichês à condição de teorização metafísica, em geral tendo por pano de fundo uma lógica de mercado perversa, que estimula a competição entre sujeitos profundamente díspares, dissimula as condicionantes desigualdades sociais no acesso deles a oportunidades, e laureia sempre os mesmos pré-escolhidos com a chancela máxima da justiça meritocrática. É uma fraude.

E, infelizmente, a pandemia de COVID-19 evidenciou dois aspectos indissociáveis nessa fraude: a absoluta incapacidade do regime neoliberal de suprir as necessidades mínimas de subsistência da mão de obra e da massa consumidora de que ele próprio depende, e a centralidade inalienável do papel do Estado na preservação da vida da população menos favorecida economicamente. Para ficar só num exemplo desse último fato, desde sua criação, em 1988, nunca foram tão cristalinas a suma importância do Sistema Único de Saúde (o SUS) e a dependência do povo brasileiro em relação a ele. Agora assistimos à perda de milhares de vidas em decorrência de anos de sucateamento da rede de atenção à saúde. A de educação, inclusive por ser bem mais antiga, tem sido agredida há muito mais tempo – e os efeitos mais nocivos desse longo processo estão às claras no noticiário cotidiano.

Faltam planejamento e investimentos, valorização d@s profissionais, mas, sobretudo, é escasso o compromisso político com a compreensão e o respeito àquilo que é o caráter precípuo da escola pública: a educação para a vida e para a liberdade física e intelectual dos educandos. Hoje, em meio a uma pandemia que já matou bem mais de trinta mil brasileiros, os veios mais profundos dessa escassez se mostram na pressão institucional pela implementação mambembe de atividades remotas de ensino para alunos de educação básica, sobretudo nos âmbitos municipal e estadual, mas também no federal.

Sejamos claros: quem expõe o outro à morte e à tortura psicológica não prioriza a vida nem a liberdade. Tanto quanto médic@s, engenheir@s, advogad@s, jornalistas e jornaleir@s, pedreir@s, padeir@s, militares etc, professor@s e alun@s estão lutando pela própria vida enquanto choram seus mortos, na maioria das grandes e médias cidades brasileiras. Logo, o calendário escolar não pode ser uma prioridade diante de uma rotina diária de centenas, milhares de mortes; rotina, aliás, cujo fim sequer se vislumbra de maneira confiável. Não é papel da escola, menos ainda da pública, obrigar ou ensinar ninguém a se resignar e aguardar bovinamente na fila da loteria da morte sem razão. A escola pública não pode se colocar a serviço da criação desse gado.

Bem ao contrário: escola pública é lugar de ensinar e aprender a exercer a luta pela vida e pela liberdade. Essa missão se cumpre sobretudo pela ação política, ação que não se restringe ao habitual dizer “não” frente àquilo de que se discorda. Isso às vezes é até fácil. Mas resistir é também saber dizer “sim!” quando é necessário e justo.

É justo e necessário reconhecer: já passou da hora de a escola pública brasileira, majoritariamente pobre e negra (preta ou parda), dizer “Sim, nossas vidas importam! Não somos apenas números”. Porque, muitas vezes vinda dos gabinetes refrigerados de gestor@s carreiristas, a imposição pela retomada a qualquer custo de atividades pedagógicas remotas é, mais do que precipitada, fantasiosa e cruelmente nociva.

É fantasiosa porque, salvo casos particulares muitíssimo diluídos no cômputo geral, @s professor@s brasileir@s não temos capacitação técnica para levar a bom termo atividades pedagógicas a distância (seja em ambientes virtuais de aprendizagem, sites abertos, redes sociais ou aplicativos). É fantasiosa, também, porque, como é sabido, empiricamente comprovável e fartamente divulgado pela imprensa (o Jornal Nacional de 25 de maio último, inclusive, apresentou reportagem sobre o tema), a imensa maioria d@s alun@s e uma boa parte d@s professor@s da rede pública brasileira não têm acesso regular a sinal de internet de qualidade. Trocando em miúdos, em se tratando de atividades pedagógicas remotas (em ambiente virtual dedicado à aprendizagem ou não), o cenário nacional é o seguinte: a maioria d@s docentes não tem capacitação técnica para efetivá-la, e a quase totalidade d@s discentes não tem recursos tecnológicos para tomar parte delas.

Agrava essa condição caótica a percepção de que, como também é sabido, empiricamente comprovável e fartamente divulgado pela imprensa, o número de vítimas fatais da pandemia de COVID-19, no Brasil, tem no endereço uma importante condicionante (“Na Europa, idade foi maior fator de risco de morte por Covid-19; no Brasil e em São Paulo é o CEP”, in Folha de São Paulo, 13/05/2020). Isto é: no nosso país, nas regiões mais pobres (e em geral mais negras, importante frisar), o número de mortos pelo novo coronavírus tem sido maior do que nas regiões menos pobres (e mais brancas). Por conseguinte, efetuando o mais básico “dois mais dois”, uma vez que o público majoritário das escolas públicas é muito frequentemente morador de regiões pobres ou muito pobres, além de ess@s alun@s terem maiores dificuldades de acesso à internet, el@s também estão mais vulneráveis à pandemia, o que implica dizer: são el@s que mais adoecem e mais perdem parentes e conhecid@s, o que lhes causa, ao fim e ao cabo, angústia e dor, sentimentos dificultadores da aprendizagem. Tudo isso sem nem tocar, para não perder o foco na questão da pandemia, na determinante exposição constante d@s morador@s dessas mesmas regiões ao risco da violência física e/ou simbólica, inclusive a institucional.

Uma conclusão possível a partir de toda essa reflexão é a seguinte: impor intempestivamente a professor@s e alun@s da escola pública brasileira o retorno às atividades pedagógicas em meio a uma crise sanitária que já vitimou mais de vinte mil conterrâne@s (parentes, amig@s, conhecid@s noss@s ou não) é precipitado e fantasioso. Outra inferência possível é que essa imposição é tremendamente cruel, porque coloca em risco a saúde física e emocional de milhões de pessoas, a pretexto de uma comparação descabida com realidades bastante diferentes da nossa, ou de retomar logo uma alegada “normalidade” que, convenhamos, já não devia ser tomada como “normal” antes mesmo da pandemia – ou alguém defende que estava tudo certo e o melhor é mesmo continuar impondo mais e mais carências à escola pública?

Escola é onde se ensina e se aprende a valorizar a vida com qualidade e a exercer a liberdade intelectual; é onde se aprende também a lidar com a morte quando ela é inevitável. Escola pública é lugar, por excelência, de luta para que tais lições não sejam abandonadas. É isso que ela é e para isso que serve.

Tags
Show More

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close